8 da manhã. Amaral Gurgel, lotada de carros, como sempre. À frente uma van destas quadradas, que tapa tudo que se pode ver adiante. De repente o trânsito se torna ainda mais lento e irritante. Carros começam a sair para a esquerda e para a direita. Quando consigo ver tem dois cones da CET, daqueles maiores, no meio da faixa, porque uma cratera se abriu. Na minha vez de passar escuto a buzina da moto que vem lá de trás, reclamando porque os carros atrapalham sua passagem entre as faixas. Passa furioso e xingando esse moderno cavaleiro medieval, porque o mundo não lhe dá o privilégio da pressa. Grudado em sua cintura vai uma Dorotéia, de capacete cor-de-rosa, entre alheia e assustada. Só consigo reparar que nosso cavaleiro errante usa meias brancas. O mundo é cômico em sua pressa.
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Passo ao lado de um lindo painel na Hélio Pellegrino, pintado à mão, com DKWs e carros antigos, decorando a cidade absurda. “Eduardo Kobra, grafiteiro (http://eduardokobra.com), muito obrigado por fazer a paisagem de São Paulo uma celebração”, agradeço em silêncio. Outro dia vi um senhor trabalhando em um muro na Ponte da Cidade Jardim Fiquei com vontade de parar o carro e ir lá cumprimentá-lo. Melhor não. Celebrações não podem parar São Paulo.
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Ontem, como quase todas as segundas-feiras, peguei o CPTM velho de guerra e fui almoçar no Shópes Tatuapé, para sair da modorra vespertina da USP Leste e seus eflúvios. Já no caminho o sistema de alto-falantes explicava a velocidade “Dorival Caymmi”: por motivos de avaria da composição à frente, esse trem está circulando com velocidade reduzida. E mais: o serviço será prestado somente até a estação Tatuapé. Suspiro coletivo, em especial de uma família enorme sentada à minha frente, cheia de tios, primos, casais e um lindo bebê amamentando-se eu uma teta. O Tatuapé não é o fim do mundo. Queríamos terminar no Brás, eles suspiravam. Melhor pegar a próxima composição, da linha 11. O mundo não acaba aqui. O bebê não está nem aí. O mundo para ele é uma teta.
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Meu filho deixa suas provas em cima da mesa para que eu veja. 9,4 em geometria. 8,5 na outra, de inglês. Assino e desenho duas carinhas sorridentes. Papai moderno não assina provas: deixa emoticons.
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É outono, afinal. Visto minha camiseta branca sob a camisa e lembro-me que sou um tiozão. Camiseta branca = tiozão. Melhor tiozão do que passar frio, eu suponho.
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Leio a tentativa de poesia de uma moça bacana que conheço, na timeline do facebook (acho que a poesia é dela). Não é grande poesia. Mas é poesia, meu deus, alguém está tentando publicar poesia na timeline. Isso me faz acreditar um pouco nas pessoas e seus facebooks.