Pode deixar que eu falo

24 abr

8 da manhã. Amaral Gurgel, lotada de carros, como sempre. À frente uma van destas quadradas, que tapa tudo que se pode ver adiante. De repente o trânsito se torna ainda mais lento e irritante. Carros começam a sair para a esquerda e para a direita. Quando consigo ver tem dois cones da CET, daqueles maiores, no meio da faixa, porque uma cratera se abriu. Na minha vez de passar escuto a buzina da moto que vem lá de trás, reclamando porque os carros atrapalham sua passagem entre as faixas. Passa furioso e xingando esse moderno cavaleiro medieval, porque o mundo não lhe dá o privilégio da pressa. Grudado em sua cintura vai uma Dorotéia, de capacete cor-de-rosa, entre alheia e assustada. Só consigo reparar que nosso cavaleiro errante usa meias brancas. O mundo é cômico em sua pressa.

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Passo ao lado de um lindo painel na Hélio Pellegrino, pintado à mão, com DKWs e carros antigos, decorando a cidade absurda. “Eduardo Kobra, grafiteiro (http://eduardokobra.com), muito obrigado por fazer a paisagem de São Paulo uma celebração”, agradeço em silêncio. Outro dia vi um senhor trabalhando em um muro na Ponte da Cidade Jardim Fiquei com vontade de parar o carro e ir lá cumprimentá-lo. Melhor não. Celebrações não podem parar São Paulo.

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Ontem, como quase todas as segundas-feiras, peguei o CPTM velho de guerra e fui almoçar no Shópes Tatuapé, para sair da modorra vespertina da USP Leste e seus eflúvios. Já no caminho o sistema de alto-falantes explicava a velocidade “Dorival Caymmi”: por motivos de avaria da composição à frente, esse trem está circulando com velocidade reduzida. E mais: o serviço será prestado somente até a estação Tatuapé. Suspiro coletivo, em especial de uma família enorme sentada à minha frente, cheia de tios, primos, casais e um lindo bebê amamentando-se eu uma teta. O Tatuapé não é o fim do mundo. Queríamos terminar no Brás, eles suspiravam. Melhor pegar a próxima composição, da linha 11. O mundo não acaba aqui. O bebê não está nem aí. O mundo para ele é uma teta.

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Meu filho deixa suas provas em cima da mesa para que eu veja. 9,4 em geometria. 8,5 na outra, de inglês. Assino e desenho duas carinhas sorridentes. Papai moderno não assina provas: deixa emoticons.

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É outono, afinal. Visto minha camiseta branca sob a camisa e lembro-me que sou um tiozão. Camiseta branca = tiozão. Melhor tiozão do que passar frio, eu suponho.

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Leio a tentativa de poesia de uma moça bacana que conheço, na timeline do facebook (acho que a poesia é dela). Não é grande poesia. Mas é poesia, meu deus, alguém está tentando publicar poesia na timeline. Isso me faz acreditar um pouco nas pessoas e seus facebooks.

Não nasci santista

14 abr

Tem gente que já nasce torcendo por um time. Eu não nasci santista. Fiz uma escolha aos 7 anos de idade. Lembro-me de meu pai, de família toda são-paulina, me levando numa loja para comprar uma camiseta daquelas com ilustração dos times e seus mascotes, e eu apontar pra outra, diferente da que ele queria me dar, dizendo: “quero essa daqui”.  Naquele momento eu não estava só escolhendo o time do Pelé, mas o time de toda a seleção brasileira de 1970, na qual também jogavam Carlos Alberto e Clodoaldo. Especialmente, esse era o time de um outro crioulo atarracado, ponta-esquerda baixinho, que vez por outra sentava alguém no chão com seus dribles, chamado Edu, a quem eu vagamente imitava nas minhas peladas na Escola de Vila São Paulo, em Tupã, a 600 quilômetros da Vila Belmiro. É claro que no momento daquela decisão fundadora de minha vida, ali, naquela loja, eu não poderia ter a dimensão da história do meu time, de suas glórias e de todos os seus títulos, passados e futuros. Eu era só um elo numa história longa, composta por milhões de outros garotos que também fizeram uma escolha e iniciaram a história de amor por um time pobre, pequeno, iluminado. Meu pai, que era um sujeito muito democrático, comprou a camisa que eu queria, na qual tinha uma baleia e o símbolo do Santos. E assim escolhi de própria paixão ser santista.

Escolhi e fui me entregando a cada dia, ao longo dos anos, cada vez mais à santisticidade. Isso mesmo: ser santista é um estado de espírito diferenciado. Nem sempre gritamos mais alto no estádio nos clássicos, talvez até porque não sejamos mais numerosos. No dia-a-dia, não somos exaltados e nem fazemos da defesa intransigente de nosso time uma questão de vida ou morte, de tiro ou de marretada. Buscamos uns aos outros nas escolas, no trabalho, na internet, nas famílias. Quando nos encontramos e nos reconhecemos, sorrimos. Achamos outro que faz parte de uma minoria de opinião forte, de paixão forte, um sentimento de diferença e de amor pelo futebol.

Porque santista, de forma geral, gosta mesmo é do bom jogo, especialmente quando jogado pelo nosso time. O glorioso alvinegro praiano, único time do planeta capaz de parar uma guerra, ou expulsar um árbitro que teve a ousadia de expulsar Pelé de campo, octacampeão brasileiro, orgulho e glória do Brasil. Vai para o exterior? Muita gente nem sabe pronunciar o nome dos clubes mais populares do Brasil. Mas do Santos, sim, gerações e gerações sabem falar o nome do time que não tem cidade-sede, tem epicentro, pois sendo de Santos, é do mundo inteiro.  

Santista adora ganhar, mas também não tem problemas em admitir quando o outro time jogou melhor. Dói, é claro. Mas santista de verdade sabe lidar com isso, porque no fundo o que interessa é o jogo que amamos. Marcelinho Carioca fez um golaço na Vila Belmiro com a camisa do Corinthians? Pelé, o melhor exemplo da santisticidade, manda fazer uma placa e colocar numa parede do estádio. O Telê era um baita técnico? Puxa, parabéns para os são-paulinos pelos vários títulos e especialmente pelo excelente futebol que o Mestre fazia seus meninos jogarem. Um dia fiquei pensando no porquê dessa situação e, é claro, concluí que passar mais de 18 anos sem qualquer título de expressão, vendo outros e melhores times levantando taças, sempre sofrendo com gozações em mesas de bar e salas de aula, bem, o sofrimento desenvolve essa casca na gente. Não é muito fácil manter-se fiel a um time que já teve no meio de campo Rubens Feijão e Totonho. Mas é assim, na alegria e na tristeza, no baile de Elano, Léo e Robinho ou no 7 a 1 contra. Somos santistas.

O amor pelo jogo bem jogado faz com que seja mais difícil jogar no time do Santos. A torcida espera mais: espera inspiração. Marcinho Guerreiro que o diga. Quem maltrata a bola, maltrata nossas glórias. Maltrata uma cidade na qual quase todo mundo bate sua bolinha e sabe muito bem avaliar a qualidade da matada, do passe, do arremate. Realmente, já me disseram que ser lateral na Vila Belmiro não é fácil. Mas, por outro lado, preste atenção: boleiro ama o Santos. Veja só a quantidade de ex-jogadores do Santos, muitos deles vindo de outros times, sempre por ali, freqüentando as tribunas e o centro de treinamento, tomando uma cervejinha no Independência, passeando no calçadão.

Torcer para esse time de camisas brancas com duas estrelas amarelas em cima de seu símbolo é um estado de espírito. E jogar com essa camisa é carregar um legado: o tecido de nossa camisa foi feito com o suor e a energia de quem tocou na bola com elegância, deu dribles envolventes, fez muitas molecagens, devolveu o grito da galera com jogadas de talento e raça. Lances que a gente presenciou com os próprios olhos ou dos quais ouviu falar.  Nem vou me ater ao Santos de antes daquela noite fatídica, em 1974, quando o Negão se ajoelhou no centro do gramado da Vila Belmiro e se voltou para os quatro cantos do estádio. Vou falar de depois: do Santos de Aílton Lira, de Pita no meio de campo, alimentando Nilton Batata, Juary e João Paulo na conquista do título paulista de 1978, os Meninos da Vila, primeira edição. Do Santos do Zé Sérgio tocando pro Humberto, que cruza pro Chulapa encher a rede do Carlos no título paulista de 1984 (e eu na numerada inferior do Morumbi, torcidas misturadas, ao lado de um corintiano segurando um peixe podre na ponta de uma vara de pescar. Quase fiz ele engolir sua pescaria com o  tanto que gritei). Santos que sofreu mas peitou o Flamengo do Zico, no Morumbi e no Maracanã. Santos que chorou um gol no último minuto, numa semifinal esquisita, cheia de coisas estranhas como a contra o Corinthians, no Paulista de 2001, na qual jogador estava municiado de ponto na orelha para receber orientação. Mas santista sabe esperar pela justiça. Não temos pressa. E ela chegou no corpo magrelo de um moleque negro, que se esbaldava de felicidade, enquanto jogava bola como se estivesse na praia, um menino chamado Robinho pedalando, pedalando, pedalando, pedalando, pedalando, pedalando, pedalando (8 vezes no total), para erguer uma taça feita de diversão, de companheirismo, de talento e de fé.

Mas a melhor maneira de compartilhar a emoção que é torcer pelo Santos, para demonstrar que esse sentimento não é igual a outros, é falar de uma vitória que não nos levou a um título. É lembrar de um Pacaembu tingido de branco, em dezembro de 1995, no dia em que enfiamos 5 a 2 no Fluminense, semi-final do Brasileirão, com o Giovanni refulgindo o cabelo e o corpo de um vermelho-raça.  No intervalo o time inteiro sentado no meio de campo (só o Narciso foi correndo no vestiário fazer xixi), com a torcida de pé, gritando “Santooooooos” (eu lá no meio). Nós, santistas, guardamos esse dia como especial, até mesmo para esquecer as gatunagens da vitória do Botafogo duas semanas depois, em nossa própria casa.  Podem dizer que guardamos só uma lembrança boa, mas retrucamos dizendo que não guardamos um caneco lustroso num armário com vidro, uma taça contestada, um título que separa a glória do merecimento. Guardamos na memória o futebol bem jogado. Com vontade. Com talento. Com emoção.  A mesma emoção que compartilhei com meu filho, Felipe, 7 anos, no estádio do Pacaembu em 2009, quando Giovanni entrou em campo com a camisa do Mogi Mirim e eu tive que contar para meu menininho, vestido com uma certa camisa branca que ele mesmo escolheu, porque tanta gente estava ali, gritando o nome de um dos jogadores do adversário.

Isso é ser santista. Reconhecer quem joga bem e amar o jogo.

Por isso, no dia dos 100 anos do meu time, fecho os olhos e penso em tantas vezes que vi meninos negros e brancos de camisas brancas, fazer um time ser tão mágico.

Saúde e obrigado, Santos Futebol Clube. Não nasci santista. Mas vivo e morrerei santista. E esse é um orgulho que todos podemos ter (mesmo que secretamente, na segunda camisa do coração).

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Propagandices

10 mar

Notícia do jornal: o Conar ontem recomendou a suspensão do anúncio do Azeite Gallo, que tem um título mais ou menos assim: “O azeite é rico. O vidro escuro é o segurança”. A reclamação é de racismo. Para mim a acusação deveria ser de eclipse mental: como é que alguém cria, alguém aprova, alguém produz e alguém veicula uma bobagem desta? Problemas da era da criativite aguda.

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Duas moças (é claro) me indicaram o comercial: Patricia Proença e Cecilia Bellesa Lobo. Maravilhosa produção publicitária: tudo o que o dinheiro pode comprar para passar uma mensagem publicitária, mostrando tudo o que o dinheiro pode comprar e fazer na vida. O que a cena final sugere, talvez não seja muito adequado na semana em que teve o Dia Internacional da Mulher. Mas vale a pena ver pela qualidade da produção. Espetacular.

http://www.youtube.com/watch?v=yaBNjTtCxd4

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Eu falo e repito que o código verbal se torna mais e mais secundário na mensagem. Não que ler e escrever seja desimportante, por favor, não me entendam mal. Mas as pessoas têm menos tempo e atenção para as mensagens. Logo, a forma de comunicação se torna mais visual, mais musical, mais intuitiva. Veja só que incrível é este vídeo que explica a promoção iPod no palito, que me foi indicada pelo Guilherme Caires. Nenhuma narração. Só música, videografismo, letreiros e inteligência.
http://www.youtube.com/watch?v=q3J5wT9uNrI

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Por fim, o comercial do The Guardian, que tornou-se viral na internet. Uma aula de cinema publicitário, que deve ter custado orçamento de longa metragem, pelo tanto de trabalho, de figuração, de figurino, de cenário, de produção que deu. O filme propõe diversas discussões relevantes sobre o valor da informação e do jornalismo na era da interação digital. Você pode apreciá-lo tanto pelo ponto de vista da criação e execução, quanto pelo ponto de vista da peça servir como índice do espírito dos tempos. Dá para dar uma aula inteira com os conceitos que ele propõe para discussão. Eu, inclusive, o utilizei para sensibilizar os alunos da UNASP, na aula/palestra que dei nesta quinta feira, na abertura do semestre, para os cursos de Comunicação Social, depois de um gentil pedido do Prof. Martin Kuhn. A razão está contra ou a favor do Lobo Mau? Nossa sociedade não pode prescindir da discussão. E o jornalista (o analista, o pesquisador, o filósofo) são bons condutores do debate, em tempos de sociedade rizomática, na qual o centro está em toda parte.

Post do primeiro dia de aula

7 mar

Em algum lugar de alguma periferia do estado de São Paulo, neste instante alguém compra uma mercadoria e nela está embutido o imposto que financia a Universidade de São Paulo.

Penso sempre nisso quando desempenho minha função de professor. Penso que esse não pode ser um discurso pronto, bonitinho, reluzente, que a gente pendura na imagem feito um quadro, porque é legal dizer coisas politicamente corretas. Meu pai era um pobre motorista de caminhão que ganhava pouco e pagava imposto. Ao filho dele foi dada a oportunidade de estudar na USP de graça. Isso mudou toda a minha vida. Infelizmente não tive tempo de ganhar dinheiro suficiente para melhorar a vida do meu pai. Ele morreu em 1985, um ano antes de eu me formar na ECA. Em honra à memória dele, ao seu orgulho de comentar com amigos que o filho estudava na USP, quero ser um bom professor.

Por isso entro em sala, a fim de dar aula, desde o primeiro minuto do primeiro dia. Sei, sei, não precisa nem me lembrar, porque sou meu maior crítico. Sou limitado. Às vezes expresso minhas opiniões meio controversas. Também sou um pouco exagerado e emocionado em minhas considerações. Minha mulher e meus filhos me lembram disso quase todo dia. Mas ninguém pode dizer que não me proponho a enfrentar uma classe com mais de 60 pessoas inteligentes, com seriedade. Todos eles sentados à minha frente e deles e delas quero exigir o melhor. Lá fora está um país imenso, que não sabe direito o que é marketing e que continua exportando soja e comprando produto com valor agregado altíssimo. Pouco mudou desde 1500: mandamos pau Brasil e recebemos espelhinhos. Precisamos qualificar essa rapaziada para mudar a história desse país. Isso passa por marcas, produtos, serviços que gerem renda, que melhorem a vida de milhões.

Onze anos de docência, com muitos emails, cartas, abaixo assinados, reclamações, avaliações, homenagens, amizades, tenho consciência de que faço isso com alguma qualidade. Ninguém passa em um curso comigo, a fim de aprender, que quatro meses depois não possa dizer que eu não tentei. Há onze anos faço isso por mim e faço também por todas as pessoas que se deslocam de carro, de trem, que muitas vezes estão cansadas, irritadas, com fome, com saudade de casa, com medo do futuro, com cólica, triste porque o time perdeu. Faço isso por nossa sociedade, pelo meu ideal de um mundo melhor. O professor Josmar é chato. Ele chama a atenção. Briga com quem está no facebook. Mas no fundo, esse cara a quem me refiro em terceira pessoa, porque é um ideal de mim mesmo, busca promover o mérito, reconhecer quem se esforça. Fico triste, muito triste, quando vejo pessoas boas que não conseguiram passar. Aí peço que elas pensem porque falharam. Eu já falhei tantas vezes.

Ao final de um dia de trabalho estou cansado, quase sem voz. Vou dormir podre. Ensinar cansa, exaspera. Corresponde a correr uma maratona mental. Professor é exemplo. Em uma sociedade cheia de safardanas e sambariloves, nosso papel é servir como referência. Pessoal. Intelectual. Não podemos fraquejar naquele tempo que desempenhamos este papel, o de educador. O de alavanca para pessoas que queremos que sejam melhores do que a gente. E aluno… bem, aluno é um bicho engraçado: a sua maior felicidade é nos ver escorregar na casca de banana. Eles riem, eles ridicularizam, eles provocam, eles querem testar os limites. Tem um pouco de pai e filho aí. Por isso, o melhor da vida não é aluno. É ex-aluno. Eles é que têm o senso crítico necessário para avaliar nosso desempenho. Adoro quando ex-aluno se lembra de mim e me escreve. Faz um bem danado para o ego.

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Entrei na sala nesta segunda feira às 8h00 e encontrei dezenas de novos companheiros de jornada na compreensão da Comunicação Integrada de Marketing. Serão duas turmas, manhã e noite, 66 caras novas em cada turno. Da maior parte eu não sei o nome (ainda). De alguns aprenderei pelo melhor que fizerem. De outros, pelo pior. Até julho eles serão o desafio ao qual desafiarei. Vamos lá, fazer jus ao nome desta magnífica Universidade. Em honra ao cidadão que paga seu imposto, como seu João, meu pai.

Koyaanisqatsi e a Cidade do Samba

1 mar

1983. Mostra de Cinema de São Paulo. Cine Metrópole, ali na Praça Dom José Gaspar, ao lado da Biblioteca Municipal. Naquele tempo a Mostra era semi amadora, turbinada pelo amor ao cinema e verbas públicas, com menos interesse em enriquecer os idealizadores e mais pretensão de trazer para São Paulo imagens, autores, linguagens, que o sistemão nunca traria para a gente ver. O Leon Cakoff era ídolo e guru da galera e fazíamos fila para ver filmes como Saló e Sid & Nancy e Asas do Desejo.

O esquema era menos dinheirista, até porque o ingresso valia para a tarde inteira. Quantos filmes o vivente agüentasse na sessão programada, pelo mesmo preço. Bons tempos. Era mais jovem, mais pretensioso e fisicamente capaz de entrar em um sábado à tarde às 14h00 na maratona de filmes e sair de lá às 02h00 do domingo, sustentado por um lanchinho que a namorada levava na sacola de piquenique. Eu estudava na ECA e cinema e (é e será) meu assunto, minha paixão, meu alimento.

Este sábado específico, um sábado mágico: no cinema Dennis Hopper e Godfrey Reggio. Vi no mesmo dia Out of Blue sem legendas, Um dimanche a la campagne do Bertrand Tavernier, Koyaanisqatsi e Os Eleitos, do Phillip Kaufmann.

Godfrey Reggio, diretor do filme de nome esquisito, era alto. Usava barba. Disseram-me que também era pastor protestante. Sentou-se em uma poltrona das laterais daquele cinemão lotado. As pessoas todas no maior frisson, esperando a obra cinematosinfônica prometida. Koyaanisqatsi é uma palavra indígena, da etnia hopi, que quer dizer Vida Fora do Equilíbrio. Quase duas horas de imagens. Música do Phillip Glass. Eu ali, do alto dos meus 20 anos, pensando em como pegar um atalho para ser genial assim. O mundo ali, tão claramente esquisito, tão simplesmente equivocado, desfilando nos meus olhos em fúria. Música e movimento. Imagens às vezes aceleradas, às vezes na técnica do tilt shift que acelera quadros capturados em longos períodos de tempo, às vezes em câmera lenta. Ângulos insólitos, como os que comparam gente na catraca do metrô com fábrica de salsichas. Proposições semânticas inquietantes, como as que mostram humanos em câmera lenta numa praia, o fundo desfocado; e quando ele foca, desfocando as famílias em primeiro plano, vemos uma usina nuclear, o vapor subindo aos céus.

Vida fora do balanço. Vida que inercialmente aceitamos como dada, como certa, feito mais uma edição do Big Brother comentada pelo Bial.

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Jarbas Agnelli e Keith Loutit fizeram um vídeo em tilt shift para mostrar, de um ângulo surpreendentemente original, porque o Carnaval do Rio é o maior espetáculo da terra.  Diríamos que trata-se de um filhote do Koyaanisqatsi. Pelas imagens, pelos ângulos, pela trilha. Eu parei aqui alguns minutos, dei uma pausa na minha vida fora do balanço, para admirar o discurso, as sensações visuais e sonoras.  Fiquei aqui pensando se o Carnaval é câmera lenta ou tilt shift. Mas admirei o propósito dos autores. Pensei em como esse cara aqui, de 48 anos, se afastou daquele moleque de 20, que um dia se aproximou perto do Reggio, logo depois do filme exibido, mas não teve coragem de dizer como gostaria de ter feito uma coisa assim.

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Informação circulando em tempos do Word-of-mouse. Quem me apresentou o City of Samba foi seu Gérson, 77 anos completados no próximo domingo. Quem mostrou o City of Samba para o seu Gérson foi o Ricardo Freire, do blog viajenaviagem.com.br.  Não tenho certeza, mas acho que fui eu quem apresentou o Ricardo Freire pro seu Gersón.

Veja aqui o trailer do Koyaanisqatsi que achei no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=PirH8PADDgQ

Agora o link para ver o City of Samba:

http://www.youtube.com/watch?v=XboAeIjcs2E

Oscar é brega, mais nóis gosta.

28 fev

Tenho um grande amigo, com quem não falo há tempos mas de quem sempre leio o blog, socialista até a unha do dedo mindinho do pé que se dedicou a comentar o Oscar. O problema é que ele começa sua coluna dizendo assim: “não vi O Artista, mas acho… Não vi o Hugo Cabret, mas acho que…”. Oscar é assim, feito desfile de escola de samba: ninguém viu todas as atrações, mas adora comentar. Tradição de uns 84 anos, mais ou menos.
Eu, por exemplo, não vi até o final, tinha que acordar cedo, mas torci pelo O Artista, um filme impressionante em termos de ousadia e das referências para quem ama cinema (veja o post ali embaixo sobre o filme e não deixe de ver o verbete John Gilbert na Wikipédia).
Algumas coisas para as quais prestei atenção:
- Não existiria cinema sem a Kodak. Uma empresa tristemente a caminho da bancarrota que dá nome (naming rights) ao teatro no qual acontece o evento a quem o Billy Cristal, em algum momento, se referiu como “o teatro ao qual não se pode dizer o nome”.
- Em tempos de acidentes teatrais no Brasil e na Broadway, fiquei pensando: e se um cabra daqueles lá do Cirque Du Soleil caísse em cima da Angelina Jolie e do Brad Pitt? O seguro cobre o estrago?
- Na hora em que o Billy Cristal canta a canção idiota sobre os candidatos a melhor filme, prestaram atenção ao tempo que ele dedicou ao filme do Malick e ao filme do Woody? Duas linhas. Em compensation… ele quase mandou o telefone para o George Clooney chamá-lo para jantar depois. Fora o beijo na boca no clipe inicial. Pensei: “esse tá no papo!”. O filme, não o Billy.
- Terrence Malick é o dono do filme mais perturbador do ano, A Árvore da Vida, sobre o qual ninguém falou, ninguém viu, ninguém mencionou.
- Da série “complexo de vira-lata mode on”: a mídia toda exagerando na menção, na expectativa e no choro sobre a derrota da (belíssima) canção de Rio. O que ninguém percebeu é que o filme não foi nem indicado para melhor animação, apesar da excelente carreira que fez na bilheteria norte-americana. E também, na mesma linha, houve exageros na depreciação da canção dos Muppets. No contexto do filme, a canção é ótima e propõe muitas reflexões sobre a existência humana, apesar do refrão All By Myself chupadaço (o próprio compositor admitiu). A música do Rio é uma belíssima sinfonia oca, sem qualquer coisa além de uma ode à beleza da cidade. Nos dois casos, meus filhos adoraram.
- O Rubens Ewald Filho precisa entender uma coisa: o Oscar é seu momento Joãosinho Trinta do ano. Hora de aparecer, de brilhar, de mostrar conhecimento. Todo mundo (que tem televisão por assinatura) espera isso dele. Não é hora de ficar com pigarro na voz. Cuide-se, amigão. Esse é seu instrumento de trabalho, como diria minha ídala, dona Marlene Mattos.
- Woody Allen, Woody Allen, Woody Allen (fiu-fiu-fiu). Se você não viu ainda, procure nas melhores casas do ramo o Meia-Noite em Paris. Se até o Zé Wilker fala em rede nacional que baixa filme, por que nós devemos ser cidadãos mais moralmente retos? (Eu vou esperar para comprar o DVD porque tenho quase a coleção completa do Woody. Por sinal, procurem no Submarino a oferta imperdível: caixa de 20 filmes do Woody em DVD por 160 reais).

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O Artista – Comentários à moda de fluxo de tempo com a mente caótica operando

24 fev

19h00 – Chego antes para comprar ingresso e, como sempre, me irrito com aquele microfone ridículo que ninguém entende direito o que fala o atendente na cabine de venda. Os coitados dos bilheteiros pagam o mico de repetir e repetir. Tenho quarenta minutos para fazer nada e andar pelo shopping. Vejo um careca, de óculos e barbicha, olhando as vitrines e tenho a sensação de que o conheço de algum lugar. Entramos juntos na loja da Apple. Eu, como sempre, babo naquilo que não posso comprar, mas pelo menos o tempo passa.

19h30 – Minha mulher chega meio esbaforida do trabalho e comenta: “putz! uma hora e quarenta de filme mudo, preto-e-branco. Se eu soubesse disso desde o começo talvez não tivesse topado”. Ia acrescentar: “e produção franco-belga”, mas resolvi me calar para não assustá-la. Melhor dizer: “mas ele concorre a 10 Oscars”. Subimos juntos na escada rolante e ela reconhece o careca: “olha, é o Ricardo Freire. Vou pedir um autógrafo. Esse cara é o meu ídolo porque tem o melhor emprego do mundo. É pago para viajar”. Quem não sabe de quem se trata, cheque o site www.viajenaviagem.com.br. Realmente, o cara é gênio (e o blog é muito bom).

19h40 – Compramos um pacote médio de pipoca por extorsivos R$ 9,00. O médio, no caso, dá para alimentar uma família de mórmons, com pai, cinco esposas e uns quinze filhos. De antemão já sei que vou ficar enjoado com o cheiro e com o barulho, mas fazer o quê? Dona esposa está com fome e não há tempo para a boquinha pré-filme. Eu adoro pipoca.

19h53 – Longo período de trailers. Deveria ter ido comer um sanduíche antes. Dava tempo. E ainda evitaria comer tanto sal e gordura e fazer tanto barulho. Pensei na indução à pipoca que permeia o trailer da seguradora. Alguns chamariam de propaganda subliminar, mas eu não acredito nisso. Mas que você é coagido a ficar com vontade de comer pipoca, isso é. Dali vem um bom lucro da operação, com certeza. Outra coisa, por falar em trailer: como Hollywood faz lixo e promove como se fosse ouro! Cada filmeco de terror que tenha dó. Outra coisa da outra coisa: quem assiste tanto filme de terror procura ver coisas mais amenas do que viver em São Paulo, é isso?

19h55 – Começa o filme. Nos primeiros cinco minutos fico muito curioso. Referências ao Cantando na Chuva. O ator (Jean Dujardin), fisicamente, é quase o Gene Kelly. Há a metalinguagem do cinema que vê o cinema e ainda mais: o cinema que está referenciado ali,  subentendido, que é o começo do Singin’ in the Rain. O diretor (Michel Hazanavicius) é gênio: para falar do cinema mudo, ele se baseou na estética (no ritmo, no corte, na iluminação, no gestual, na cenografia, na trilha) do cinema mudo. A forma da mensagem é a própria mensagem, como diria o McLuhan. O roteiro está ajustado a este modelão. A música é espetacular. Afivele os cintos que a nave vai decolar.

20h30 – Olho pela primeira vez no relógio.  Realmente esses franceses poderiam se basear nos tempos do cinema mudo,  mas também levando em consideração os minutos de duração. Tirando os dramalhões do tipo “E o Vento Levou”, ninguém gastaria tanto celulóide com o filme que já tem 40 minutos e nem começou a empinar ainda. Vai ser um longo vôo. Mas está valendo a pena. Para quem ama o cinema, este é um filme muito especial.

21h20 – Ok, ok. Entendi. Uma aula de cinema, é isso. Estética do filme mudo, milhões de referências a outras milhares de obras. Garbo, John Gilbert, Cyd Charisse, Gene Kelly, Louis B. Mayer, está tudo ali. Dorian Grey, O Crepúsculo dos Deuses, All About Eve… uau.  A história das rupturas de estilo, as inovações técnicas e seus impactos. Quem gosta da mais envolvente forma de expressão que o ser humano criou, tirante talvez a música ouvida em ambiente escuro (na minha modesta opinião), bem, esse é filme que não se deve perder. As interpretações, além disso, são fantásticas. Apesar do roteiro também se valer da ingenuidade (não sei se essa é uma boa palavra) meio flat dos filmes daquela época, que não ofereciam muitas nuanças, que contavam histórias com o foco no Home e na Marge Simpson, meio que obtusas, diretas, sem muitos recursos de exigência de interpretação dos astros. Mesmo assim o tal do Dujardin arrebenta no papel principal.

21h30 – E a história? Olha, eu não quero comentar muito para não estragar o prazer de quem quer ver. Mas não é filme para massas, pelo contrário. Produção franco-belga, com foco no mercado norte-americano, que exige algum conhecimento de história do cinema e referências, em ritmo, enquadramento e estética dos anos 1930. Realmente é dose para tatu cinéfilo. Não vai rolar para o Homer a fim de “Se eu fosse você 3″. Alguns casais se levantaram ao longo do filme. Eu adorei. Adorei especialmente algumas transições de edição para realçar idéias centrais da trama e também para demonstrar a influência da mudança técnica na psiquê das pessoas. E palmas – todas as palmas – para a partitura da trilha. Uma hora e quarenta de música orquestral contando uma história, que máximo.

21h40 – Termina o filme. No finalzinho tive tempo para pensar no contraste estético dos dois filmes padrão Oscar que vi na semana: A Invenção do Hugo Cabret e O Artista. Antípodas que homenageiam o cinema. O do Scorsese é barroco, grandiloquente, exagerado, cheio de efeitos especiais e milhões de dólares consumidos em figurantes e cenários (na verdade o filme é uma ode aos efeitos especiais e um de seus criadores). Já O Artista é um filme silenciosamente eloquente: fala pelos cotovelos em termos de idéias (e da própria trama), mas mantém-se sóbrio por aferrar-se aos conceitos estéticos da época, por isso se vale de menos recursos do que está disponível hoje em dia. Minha maior curiosidade é imaginar as duas reuniões de produção que aprovaram estes projetos. Alguém mais, que não chamasse Martin Scorsese, conseguiria aprovar o orçamento do Hugo Cabret? Alguém mais, além do financiamento estatal franco-belga, toparia encarar um filme de época com a pegada d’O Artista? Imagine as cenas de aprovação do orçamento. Dá filme.

21h55 – No banheiro do Cinemark um moleque de camisa alaranjada, uns 19 anos, fala com o amigo, que mija ao seu lado: “que demais, que demais, que do car¨%*o. É drama, é comédia, tem ritmo… que demais, cara. Muito melhor que o Cabret”. Eu ali, naquela situação meio vexatória, querendo participar do papo. Mas não tive coragem de dizer “entrem na wikipedia e procurem esse nome: John Gilbert. Depois de ver o filme, vale a pena fazer isso”.

 

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