Tem gente que já nasce torcendo por um time. Eu não nasci santista. Fiz uma escolha aos 7 anos de idade. Lembro-me de meu pai, de família toda são-paulina, me levando numa loja para comprar uma camiseta daquelas com ilustração dos times e seus mascotes, e eu apontar pra outra, diferente da que ele queria me dar, dizendo: “quero essa daqui”. Naquele momento eu não estava só escolhendo o time do Pelé, mas o time de toda a seleção brasileira de 1970, na qual também jogavam Carlos Alberto e Clodoaldo. Especialmente, esse era o time de um outro crioulo atarracado, ponta-esquerda baixinho, que vez por outra sentava alguém no chão com seus dribles, chamado Edu, a quem eu vagamente imitava nas minhas peladas na Escola de Vila São Paulo, em Tupã, a 600 quilômetros da Vila Belmiro. É claro que no momento daquela decisão fundadora de minha vida, ali, naquela loja, eu não poderia ter a dimensão da história do meu time, de suas glórias e de todos os seus títulos, passados e futuros. Eu era só um elo numa história longa, composta por milhões de outros garotos que também fizeram uma escolha e iniciaram a história de amor por um time pobre, pequeno, iluminado. Meu pai, que era um sujeito muito democrático, comprou a camisa que eu queria, na qual tinha uma baleia e o símbolo do Santos. E assim escolhi de própria paixão ser santista.
Escolhi e fui me entregando a cada dia, ao longo dos anos, cada vez mais à santisticidade. Isso mesmo: ser santista é um estado de espírito diferenciado. Nem sempre gritamos mais alto no estádio nos clássicos, talvez até porque não sejamos mais numerosos. No dia-a-dia, não somos exaltados e nem fazemos da defesa intransigente de nosso time uma questão de vida ou morte, de tiro ou de marretada. Buscamos uns aos outros nas escolas, no trabalho, na internet, nas famílias. Quando nos encontramos e nos reconhecemos, sorrimos. Achamos outro que faz parte de uma minoria de opinião forte, de paixão forte, um sentimento de diferença e de amor pelo futebol.
Porque santista, de forma geral, gosta mesmo é do bom jogo, especialmente quando jogado pelo nosso time. O glorioso alvinegro praiano, único time do planeta capaz de parar uma guerra, ou expulsar um árbitro que teve a ousadia de expulsar Pelé de campo, octacampeão brasileiro, orgulho e glória do Brasil. Vai para o exterior? Muita gente nem sabe pronunciar o nome dos clubes mais populares do Brasil. Mas do Santos, sim, gerações e gerações sabem falar o nome do time que não tem cidade-sede, tem epicentro, pois sendo de Santos, é do mundo inteiro.
Santista adora ganhar, mas também não tem problemas em admitir quando o outro time jogou melhor. Dói, é claro. Mas santista de verdade sabe lidar com isso, porque no fundo o que interessa é o jogo que amamos. Marcelinho Carioca fez um golaço na Vila Belmiro com a camisa do Corinthians? Pelé, o melhor exemplo da santisticidade, manda fazer uma placa e colocar numa parede do estádio. O Telê era um baita técnico? Puxa, parabéns para os são-paulinos pelos vários títulos e especialmente pelo excelente futebol que o Mestre fazia seus meninos jogarem. Um dia fiquei pensando no porquê dessa situação e, é claro, concluí que passar mais de 18 anos sem qualquer título de expressão, vendo outros e melhores times levantando taças, sempre sofrendo com gozações em mesas de bar e salas de aula, bem, o sofrimento desenvolve essa casca na gente. Não é muito fácil manter-se fiel a um time que já teve no meio de campo Rubens Feijão e Totonho. Mas é assim, na alegria e na tristeza, no baile de Elano, Léo e Robinho ou no 7 a 1 contra. Somos santistas.
O amor pelo jogo bem jogado faz com que seja mais difícil jogar no time do Santos. A torcida espera mais: espera inspiração. Marcinho Guerreiro que o diga. Quem maltrata a bola, maltrata nossas glórias. Maltrata uma cidade na qual quase todo mundo bate sua bolinha e sabe muito bem avaliar a qualidade da matada, do passe, do arremate. Realmente, já me disseram que ser lateral na Vila Belmiro não é fácil. Mas, por outro lado, preste atenção: boleiro ama o Santos. Veja só a quantidade de ex-jogadores do Santos, muitos deles vindo de outros times, sempre por ali, freqüentando as tribunas e o centro de treinamento, tomando uma cervejinha no Independência, passeando no calçadão.
Torcer para esse time de camisas brancas com duas estrelas amarelas em cima de seu símbolo é um estado de espírito. E jogar com essa camisa é carregar um legado: o tecido de nossa camisa foi feito com o suor e a energia de quem tocou na bola com elegância, deu dribles envolventes, fez muitas molecagens, devolveu o grito da galera com jogadas de talento e raça. Lances que a gente presenciou com os próprios olhos ou dos quais ouviu falar. Nem vou me ater ao Santos de antes daquela noite fatídica, em 1974, quando o Negão se ajoelhou no centro do gramado da Vila Belmiro e se voltou para os quatro cantos do estádio. Vou falar de depois: do Santos de Aílton Lira, de Pita no meio de campo, alimentando Nilton Batata, Juary e João Paulo na conquista do título paulista de 1978, os Meninos da Vila, primeira edição. Do Santos do Zé Sérgio tocando pro Humberto, que cruza pro Chulapa encher a rede do Carlos no título paulista de 1984 (e eu na numerada inferior do Morumbi, torcidas misturadas, ao lado de um corintiano segurando um peixe podre na ponta de uma vara de pescar. Quase fiz ele engolir sua pescaria com o tanto que gritei). Santos que sofreu mas peitou o Flamengo do Zico, no Morumbi e no Maracanã. Santos que chorou um gol no último minuto, numa semifinal esquisita, cheia de coisas estranhas como a contra o Corinthians, no Paulista de 2001, na qual jogador estava municiado de ponto na orelha para receber orientação. Mas santista sabe esperar pela justiça. Não temos pressa. E ela chegou no corpo magrelo de um moleque negro, que se esbaldava de felicidade, enquanto jogava bola como se estivesse na praia, um menino chamado Robinho pedalando, pedalando, pedalando, pedalando, pedalando, pedalando, pedalando (8 vezes no total), para erguer uma taça feita de diversão, de companheirismo, de talento e de fé.
Mas a melhor maneira de compartilhar a emoção que é torcer pelo Santos, para demonstrar que esse sentimento não é igual a outros, é falar de uma vitória que não nos levou a um título. É lembrar de um Pacaembu tingido de branco, em dezembro de 1995, no dia em que enfiamos 5 a 2 no Fluminense, semi-final do Brasileirão, com o Giovanni refulgindo o cabelo e o corpo de um vermelho-raça. No intervalo o time inteiro sentado no meio de campo (só o Narciso foi correndo no vestiário fazer xixi), com a torcida de pé, gritando “Santooooooos” (eu lá no meio). Nós, santistas, guardamos esse dia como especial, até mesmo para esquecer as gatunagens da vitória do Botafogo duas semanas depois, em nossa própria casa. Podem dizer que guardamos só uma lembrança boa, mas retrucamos dizendo que não guardamos um caneco lustroso num armário com vidro, uma taça contestada, um título que separa a glória do merecimento. Guardamos na memória o futebol bem jogado. Com vontade. Com talento. Com emoção. A mesma emoção que compartilhei com meu filho, Felipe, 7 anos, no estádio do Pacaembu em 2009, quando Giovanni entrou em campo com a camisa do Mogi Mirim e eu tive que contar para meu menininho, vestido com uma certa camisa branca que ele mesmo escolheu, porque tanta gente estava ali, gritando o nome de um dos jogadores do adversário.
Isso é ser santista. Reconhecer quem joga bem e amar o jogo.
Por isso, no dia dos 100 anos do meu time, fecho os olhos e penso em tantas vezes que vi meninos negros e brancos de camisas brancas, fazer um time ser tão mágico.
Saúde e obrigado, Santos Futebol Clube. Não nasci santista. Mas vivo e morrerei santista. E esse é um orgulho que todos podemos ter (mesmo que secretamente, na segunda camisa do coração).
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